segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Meu coração diz...

A vida é engraçada, especialmente nos dias de hoje em que podemos ser o que imaginarmos. Temos acesso a milhares de informações, culturas, etnias, às vezes nos identificamos com elementos que não fazem parte do nosso dia-a-dia, da nossa nacionalidade.

Nasci brasileira, mãe e pai brasileiros, falante de português, mas impressionantemente fascinada por um mundo além do meu: o mundo árabe. Ou seria o mundo islâmico? Ou seria os dois fundidos numa cultura que perpassa séculos de existência?

Lembro de quando criança querer dançar, montar roupas de odalisca, de aproveitar os filmes sobre Jesus para ouvir a música que tanto gostava; de ouvir Débora Blando, Loreena Mckennitt para ter por perto acordes que me cativassem. Lembro de pegar o lençol e usá-lo como véu; lembro da minha amiga de infância, hoje muito menos árabe do que eu, mas de família muçulmana, me contar de suas histórias familiares. Lembro de me imaginar com o nome "Soraya", lembro de imaginar um sheik para mim quando eu completasse 15 anos.

Ridículo, não? Hoje eu acho ridículo mesmo, eu apenas reproduzia um imaginário orientalista, algo envolto em mistério, sensualidade, paixão. Eu era a reprodução de um estereótipo, mas sinceramente não lembro quando e como tive contato com isso, antes mesmo de Alladin ser um personagem da Disney (até porque minha princesa favorita era Ariel e não a Jasmine). Lembro apenas de me encontrar fascinada, e querer ser parte de um mundo de sonhos, que nunca existiu.

Ou algo poderia se aproximar dele? Hoje imagino Al-Andalus como o espaço dos meus sonhos: princesas, literatos, poesia, erotismo. Lá gostaria de ir e vir, a todo esse mundo que divide uma história, ainda que pincelada em culturas das mais diversas, ver, sentir o que são, como são, como veem o mundo que os cerca e como veem aquilo que está além deles. No fundo me sinto frustrada por ser mulher, não pela função sexual, mas por viver limitada a desbravar tantos mundos e cantos, por não poder me fazer respeitar por onde quer que eu fosse.

Se fisicamente essa viagem para mim é difícil, arriscada, ou impossível (não tenho dinheiro e nem sou um bon-vivant do séc. XIX), me restam os livros, os relatos, os filmes, as músicas. Eles me transportam e me seduzem, não com um olhar orientalista, preconceituoso, um olhar que quer ver o que há dentro de si e não o que é aparente, mas um olhar da compreensão, da persuasão, do questionamento. O que é este mundo? Por que nos referimos a ele como outro mundo, quase que noutra dimensão? O que perpassa nele e em mim, daqui, longe, mas perto por um sentimento de pertencimento, sem de fato pertencer.

Aqui no blog quero escrever sobre meus sentimentos, sobre meu olhar e minha pesquisa. Como historiadora, eu mais do que estudo meu objeto de pesquisa, eu o amo.

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